“O 25 de Abril Tem de Chegar ao Campo”: O Enquadramento Político das Classes Rurais Através da Imprensa na Revolução Portuguesa de 1974–1975

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.49(2026).6471

Palavras-chave:

Revolução dos Cravos, imprensa periódica, comunicação política, classes rurais

Resumo

Sem compreender os fundamentos políticos e a viragem cultural que se operou na Revolução dos Cravos, não seria possível analisar as respostas dadas pelo novo poder no domínio da comunicação social, um dos vetores estruturantes da realidade revolucionária. O exercício da democracia encontra-se conectado com a prática da liberdade de expressão, capacidade fomentadora do debate público, que, consequentemente, se torna numa das bases para o funcionamento da política. Tendo presente este enquadramento, o artigo analisa esta realidade, explorando a convergência entre a imprensa periódica de natureza política e os modos como esta foi concebida, mobilizada e instrumentalizada enquanto ferramenta de orientação e enquadramento de um estrato social específico: as classes rurais. Ao privilegiar o estudo dos jornais, revistas e boletins dos partidos políticos então existentes, bem como de algumas publicações produzidas ou patrocinadas pelo Estado, propomos compreender as formas específicas de comunicação política que a imprensa tornou possíveis entre 1974 e 1975, tanto no plano discursivo como no plano visual. Esta abordagem permite problematizar a imprensa como veículo de informação e como dispositivo de construção de sentidos, de mobilização e de disputa num período de profunda reconfiguração política e social. Metodologicamente, são combinadas técnicas de crítica textual, estudo das linguagens visuais e procedimentos de análise do discurso, articulando-as com uma contextualização histórica do processo revolucionário. Esta triangulação analítica possibilita identificar padrões de representação, estratégias de interpelar públicos específicos, em particular o público rural, e modos de legitimação das posições políticas em confronto. Este artigo permite, assim, aprofundar a compreensão sobre o papel da imprensa na formação de públicos políticos, na circulação de narrativas concorrentes e na cristalização de categorias sociais durante a revolução.

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Biografia Autor

Leonardo Aboim Pires, ISEG Research, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

Leonardo Aboim Pires é licenciado em História e mestre em História Contemporânea, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e doutorado em Ciências da Sustentabilidade, pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. É investigador do ISEG Research (Universidade de Lisboa) e membro da European Rural History Organisation. Tem colaborado em projetos de investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do European Research Council e tem artigos publicados em revistas científicas nacionais e estrangeiras, sobretudo sobre história económica e social, nas áreas da agricultura e sociedade rural, ambiente e alimentação. Foi distinguido com o Prémio Pedro Lains, em 2025.

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Publicado

23-01-2026

Como Citar

Pires, L. A. (2026). “O 25 de Abril Tem de Chegar ao Campo”: O Enquadramento Político das Classes Rurais Através da Imprensa na Revolução Portuguesa de 1974–1975. Comunicação E Sociedade, 49, e026002. https://doi.org/10.17231/comsoc.49(2026).6471

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