A Restituição Cultural Como Dever de Memória

Autores

  • Vítor de Sousa Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal https://orcid.org/0000-0002-6051-0980
  • Sheila Khan Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal/Escola de Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal https://orcid.org/0000-0002-8391-8671
  • Pedro Schacht Pereira Department of Spanish and Portuguese, College of Arts and Science, The Ohio State University, Ohio, Estados Unidos da América https://orcid.org/0000-0002-4691-6749

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).4039

Resumo

O Dever de Memória, título que Primo Levi (2011) deu a um dos seus livros, consubstancia toda a lógica que está subjacente à restituição cultural, num processo que está em marcha, tendente a promover a reparação dos danos provocados pelo colonialismo. Muito embora a reparação nunca seja completamente concretizada, a atitude que lhe está subjacente pode atenuar ressentimentos, num sinal assente na diversidade e não, como quase sempre aconteceu, numa lógica unilateral, decorrente de um olhar ocidental. Através da utilização da memória, que, no caso de Levi, incidiu sobre o holocausto — a que se reporta a cunhagem da expressão “dever de memória” —, foi dado o seu testemunho enquanto judeu que foi prisioneiro dos nazis, para que nada semelhante alguma vez voltasse a acontecer. Há um urgente dever de memória tendente a reparar atrocidades cometidas em tempo colonial, através do exercício da violência por parte de quem colonizava. Por conseguinte, a ideia de “dever da memória” quer significar a responsabilidade ética de nunca esquecer...

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografias Autor

Vítor de Sousa, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal

Vítor de Sousa é doutorado em ciências da comunicação (teoria da cultura), pela Universidade do Minho, com a tese Da “Portugalidade” à Lusofonia, mestre e licenciado na mesma área. Entre os seus interesses de investigação constam questões em torno da identidade nacional, memória, estudos culturais, educação para os média e teorias do jornalismo. É investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho), onde coordenou o grupo de estudos culturais (2021–2022) e é cocoordenador do Seminário Permanente de Estudos Pós-coloniais. Integra o projeto Memórias, Culturas e Identidades: O Passado e o Presente das Relações Interculturais em Moçambique e Portugal e o Museu Virtual da Lusofonia. É sócio da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, onde coordena o Grupo de Trabalho de Comunicação Intercultural (2022–2023), da European Communication Research and Education Association e da Modern Language Association of America.

Sheila Khan, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal/Escola de Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

Sheila Khan é socióloga, investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, professora auxiliar convidada da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e comentadora do painel do programa Debate Africano na RDP África. É doutora em estudos étnicos e culturais pela Universidade de Warwick. As suas mais recentes publicações são: Portugal a Lápis de Cor. A Sul de uma Pós-Colonialidade (Almedina, 2015); Visitas a João Paulo Borges Coelho. Leituras, Diálogos e Futuros (com Nazir Can, Sandra Sousa, Leonor Simas-Almeida e Isabel Ferreira Gould, Colibri, 2017); O Mundo na Europa: Crises e Identidade (com Rita Ribeiro e Vítor Sousa, Húmus, 2020); Racism and Racial Surveillance. Modernity Matters (com Nazir Can e Helena Machado, Routledge, 2021); e, finalmente, Djaimilia Pereira de Almeida: Tecelã de Mundos Passados e Presentes (com Sandra Sousa, no prelo).

Pedro Schacht Pereira, Department of Spanish and Portuguese, College of Arts and Science, The Ohio State University, Ohio, Estados Unidos da América

Pedro Schacht Pereira é professor associado de literaturas de língua portuguesa no Departamento de Espanhol e Português da Universidade Estatal de Ohio. Fez parte da equipa que criou, em 2012, o Programa de Doutoramento em Estudos do Mundo Lusófono na mesma universidade. É licenciado em filosofia pela Universidade de Coimbra (1993) e doutorado em estudos portugueses e brasileiros pela Universidade de Brown (2005). Investiga a representação da negritude na literatura portuguesa, literatura portuguesa de autoria negra, colonialismo e pós-colonialismo na literatura portuguesa.

Referências

Araújo, A. L. (2017). Reparations for slavery and the slave trade. A transnational and comparative history. Bloomsbury.

Barreiros, I. B. (2021, 25 de outubro). O labor da memória como “intervenção radical” e “reparação”: entrevista com Marita Sturken. Buala. https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/o-labor-da-memoria-como-intervencao-radical-e-reparacao-entrevista-com-marita-sturken

Bhabha, H. (1998). O local da cultura (M. Ávila, E. L. L. Reis & G. R. Gonçalves, Trads.). Editora UFMG. (Trabalho original publicado em 1994)

Brito, J. P. (2016). Museus e interrogações num mundo global. In D. R. Curto (Ed.), Estudos sobre a globalização (pp. 509–515). Edições 70.

Catroga, F. (1999). “A história começou a oriente.” O orientalismo em Portugal (séculos XVI-XX): Edifício da Alfândega, Porto, 1999. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Cordeiro, L. (1886). A questão da Guiné n’um discurso de Alexandre Herculano. As Colónias Portuguezas, IV, 25–31.

Curto, D. R. (2021, 7 de julho). Guerras culturais e memória do império. Luxemburger Wort. https://www.wort.lu/pt/sociedade/guerras-culturais-e-mem-ria-do-imperio-60ee9d3ade135b9236f2dbfc

Hall, S. (1992). A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A Editora.

Hartog, F. (2003). Regimes d’historicité: Presentisme et experiences du temps. Seuil.

Hicks, D. (2020). The brutish museums. The Benin bronzes, colonial violence and cultural restitution. Pluto Press.

Hirsch, M. (2008). The generation of postmemory. Poetics Today, 29(1), 103–128. https://doi.org/10.1215/03335372-2007-019

Jerónimo, M. B. (2010). Livros brancos, almas negras: A “missão civilizadora” do colonialismo português (c. 1870-1930). Imprensa de Ciências Sociais.

Jerónimo, M. B., & Monteiro, J. P. (2020). Histórias(s) do presente. Os mundos que o passado nos deixou. Público; Edições Tinta-da-China.

Jerónimo, M. B., & Rossa, W. (Eds.). (2021). Patrimónios contestados. Público – Comunicação Social.

Khan, S., Can, N., & Machado, H. (Eds.). (2021). Racism and racial surveillance. Modernity matters. Routledge.

Khan, S., & Machado, H. (2021). Postcolonial racial surveillance through forensic genetics. In S. Khan, N. Can & H. Machado (Eds.), Racism and racial surveillance. Modernity matters (pp. 153–172). Routledge.

Levi, P. (2011). O dever de memória. Cotovia.

Mbembe, A. (2018). Necropolítica. N-1 Edições.

Meneses, M. P. (2021a). As estátuas também se abatem: Momentos da descolonização em Moçambique. Cadernos NAUI, 10(18), 108–128. http://hdl.handle.net/10316/96351

Meneses, M. P. (2021b). Desafios à descolonização epistêmica: Práticas, contextos e lutas para além das fraturas abissais. Contemporânea - revista de sociologia da UFSCa, 10(3), 1067–1097.

Nora, P. (1989). Between memory and history: ‘Les lieux de mémoire’. Representations, (26), 7–24. https://doi.org/10.2307/2928520

Peralta, E. (2022). The return from Africa: Illegitimacy, concealment, and the non-memory of Portugal’s imperial collapse. Memory Studies, 15(1), 52–69. https://doi.org/10.1177%2F1750698019849704

Pereira, P. (2018, setembro). O racismo como herança colonial numa periferia europeia. Electra, 3, 161–167.

Queirós, E. (1960). Obras de Eça de Queiroz, 2. Edição “Livros do Brasil”.

Ribeiro, A. P. (2021). Novo mundo: Arte contemporânea no tempo da pós-memória. Afrontamento.

Ribeiro, A. S. (2021). Pós-memória: Um conceito (ainda) emergente. In A. S. Ribeiro (Ed.), A cena da pós-memória: O presente do passado na Europa pós-colonial (pp. 15–28). Edições Afrontamento.

Ribeiro, M. C., & Rodrigues, F. (2022). Des-cobrir a Europa. Filhos de impérios e pós-memórias europeias. Edições Afrontamento.

Sarr, F., & Savoy, B. (2018). The restitution of african cultural heritage. Toward a new relational ethics. Ministère de la Culture. http://restitutionreport2018.com/sarr_savoy_en.pdf

Savoy, B. (2022). Africa’s struggle for its art. History of a postcolonial defeat. Princeton University Press.

Sousa, V. (2019). Memory as an interculturality booster in Maputo, through the preservation of the colonial statuary. Comunicação e Sociedade [Volume Especial], 269–286. https://doi.org/10.17231/comsoc.0(2019).3073

Sousa, V. (2021). As marcas do luso-tropicalismo nas intervenções do presidente da república português (2016-2021). RCH - Revista de Ciências Humanas, 14(2), 10–24. https://doi.org/10.32813/2179-1120.2121.V14.N2.A744

Sousa, V., Khan, S., & Ribeiro, R. (Eds.). (2020). O mundo na Europa. Crises e identidades. Húmus. https://hdl.handle.net/1822/68605

Soutelo, L. C. (2015). A memória pública do passado recente nas sociedades ibéricas. Revisionismo histórico e combates pela memória em finais do século XX [Tese de doutoramento, Universidade do Porto]. Repositório Aberto. https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/83844

World conference against racism, racial discrimination, xenophobia and related intolerance: Declaration, 2021, https://www.un.org/WCAR/durban.pdf

Publicado

2022-06-22

Como Citar

Sousa, V. de, Khan, S., & Pereira, P. S. (2022). A Restituição Cultural Como Dever de Memória. Comunicação E Sociedade, 41, 11–22. https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).4039

Artigos mais lidos do(s) mesmo(s) autor(es)