Processos de Marginalização Étnica e Cultural na África Pós-Colonial. O Caso dos Amakhuwa de Moçambique

Autores

  • Luca Bussotti Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Centro de Estudos Avançados, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil/Universidade Técnica de Moçambique, Moçambique https://orcid.org/0000-0002-1720-3571
  • Laura António Nhaueleque Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, Universidade Aberta de Lisboa, Lisboa, Portugal https://orcid.org/0000-0002-2123-0636

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3704

Palavras-chave:

esquecimento étnico, identidade nacional, marginalização, produção artística

Resumo

Apesar de a questão étnica nunca ter constituído um elemento explícito na construção do Estado moçambicano, esta sempre caracterizou a vida pública do país, com tensões relevantes, mas geralmente negligenciadas. Durante a luta de libertação, dois grupos étnicos aliaram-se, os “intelectuais” ronga e os “guerrilheiros” maconde, de facto excluindo os outros povos de Moçambique deste processo que irá marcar indelevelmente a história do país pós-colonial. Na época socialista, o lema “matar a tribo para fazer a nação” continuou a procrastinar o “esquecimento étnico”, prefigurando uma tentativa, malsucedida, de impor o modelo socialista autoritário formulado pelos ronga e machangana a todo o resto do país. A mesma situação se deu com a viragem democrática da década de 1990. Neste caso, diante de um pluralismo formal, os elementos de poder, assim como culturais e artísticos privilegiados foram, mais uma vez, os produzidos no sul (timbila e marrabenta) e no norte, pelos maconde (mapiko e esculturas), em detrimento de outros povos, entre os quais os amakhuwa, o grupo numericamente maioritário em Moçambique. Para este processo de marginalização étnica contribuíram doadores e investigadores internacionais, que aceitaram e desenvolveram a pauta proposta pela Frente de Libertação de Moçambique, interpretando práticas tradicionais como os ritos de iniciação sob o ponto de vista da violação dos direitos humanos. A pesquisa aqui apresentada traz evidências de como este longo processo de esquecimento étnico foi, em boa verdade, um programa político pensado e implementado desde a luta de libertação e que continuou, com as necessárias adaptações, até hoje, influindo diretamente na difusão da produção cultural e artística local. A abordagem usada foi de tipo histórico, com contínuos cruzamentos com a análise política e as políticas culturais de Moçambique.

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Biografias Autor

Luca Bussotti, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Centro de Estudos Avançados, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil/Universidade Técnica de Moçambique, Moçambique

Luca Bussotti, de nacionalidade italiana e moçambicana, é neste momento professor associado visitante no Centro de Estudos Avançados (Coordenadoria de África) e no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. É ainda professor no Programa de Doutoramento em Paz, Democracia, Movimentos Sociais e Desenvolvimento Humano na Universidade Técnica de Moçambique. Tem doutoramento em sociologia do desenvolvimento pela Universidade de Pisa (Itália, 2001) e fez pós-doutoramento no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (Portugal, 2014). Tem publicado cerca de 20 livros e mais de 100 artigos em revistas internacionais, com ênfase especial sobre África lusófona, com maior destaque para Moçambique. O seu âmbito privilegiado de pesquisa é a sociologia política, identidades nacionais africanas, história da África lusófona contemporânea.

Laura António Nhaueleque, Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, Universidade Aberta de Lisboa, Lisboa, Portugal

Laura António Nhaueleque, de nacionalidade moçambicana, é investigadora no Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa e professora em direitos humanos no Mestrado em Direitos Humanos, Desenvolvimento Económico e Boa Governação da Universidade Técnica de Moçambique. É mestre em estudos africanos pelo Instituto Universitário de Lisboa, e fez doutoramento em relações interculturais na Universidade Aberta de Lisboa. O seu âmbito de especialização são os direitos humanos em África, culturas africanas, sobretudo do norte de Moçambique, filosofia e religião africanas. Tem publicado, como coautora, dois livros na Itália e vários artigos, como primeira ou segunda autora, em revistas internacionais, nomeadamente em Portugal, no Brasil e na Holanda.

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Publicado

2022-06-22

Como Citar

Bussotti, L., & Nhaueleque, L. A. (2022). Processos de Marginalização Étnica e Cultural na África Pós-Colonial. O Caso dos Amakhuwa de Moçambique. Comunicação E Sociedade, 41, 149–167. https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3704