A Ambivalência Colonial nas Imagens em Movimento Contemporâneas: O Caso Português

Autores

  • Patrícia Sequeira Brás Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias, Escola de Comunicação, Arquitetura e Artes e Tecnologias da Informação, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, Portugal https://orcid.org/0000-0002-4756-1150

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3698

Palavras-chave:

ambivalência, colonialismo, pós-colonialismo, cinema, Portugal

Resumo

Este artigo é uma tentativa exploratória de abordar a ambivalência colonial implícita nas imagens em movimento contemporâneas no contexto português. O giro pós-colonial que emergiu nas últimas décadas em Portugal corrobora uma tentativa de problematizar a condição pós-colonial portuguesa, que deriva de uma admissão tardia de que a nossa sociedade contemporânea foi construída a partir da pilhagem colonial. Baseando-me na crítica à lusofonia, defendo que este giro pós-colonial é também uma consequência da necessidade de inscrever a narrativa nacional portuguesa num mundo cada vez mais global, necessidade essa que resulta da subordinação da cultura às “leis do mercado”. Além disso, essa abordagem pós-colonial presente na cultura visual contemporânea portuguesa é ambivalente, pois tende a ignorar o problema da legitimidade e da posição de fala do artista e/ou intelectual. O problema da legitimidade — de quem fala de e sobre os outros — é muitas vezes, paradoxalmente, ignorado na produção audiovisual contemporânea que aborda o passado colonial português e a sua condição pós-colonial. Da mesma maneira que a relação intrínseca entre produção visual e conhecimento e, consequentemente, entre produção visual e poder é também ignorada. Dessa forma, defendo que a ambivalência colonial continua a permear os discursos culturais e as práticas artísticas contemporâneas, mesmo quando tais práticas e discursos parecem produzir uma crítica pós-colonial.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia Autor

Patrícia Sequeira Brás, Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias, Escola de Comunicação, Arquitetura e Artes e Tecnologias da Informação, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, Portugal

Patrícia Sequeira Brás concluiu a sua investigação de doutoramento The Political Gesture in Pedro Costa’s Films (O Gesto Político dos filmes de Pedro Costa) em 2015, no Departamento de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos em Birkbeck, na Universidade de Londres. Lecionou nas Universidades de Londres e Exeter antes de aceitar a posição de investigadora no Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. O interesse na relação entre política e cinema que motivou o seu doutoramento continua a pautar os seus novos projetos de investigação. Os seus interesses atuais incluem o uso do testemunho na primeira pessoa e reencenação no cinema documental, feminismo e estudos de género, temporalidade cinematográfica e colonialidade visual.

Referências

Almeida, M. V. de. (2004). An earth-colored sea: “Race”, culture and the politics of identity in the post-colonial Portuguese-speaking world. Berghahn.

Azoulay, A. A. (2021). Toward the abolition of photography’s imperial rights. In K. Coleman & D. James (Eds.), Capitalism and the camera (pp. 72–128). Verso.

Bea, E. (2016, November 20). White skin, black masks: On the “Decolonial Desire” of Vasco Araújo. Media Diversified. https://mediadiversified.org/2016/11/20/white-skin-black-masks-on-the-decolonial-desire-of-vasco-araujo/

Bhabha, H. K. (1994). The location of culture. Routledge.

César, F. (Director). (2011). A embaixada [Film]. Calouste Gulbenkian Foundation; Haus der Kulturen der Welt.

Duarte, M. (2021, February 5). Há um Brasil a fazer perguntas difíceis a Portugal. Público. https://www.publico.pt/2021/02/05/culturaipsilon/noticia/ha-brasil-perguntas-dificeis-portugal-1949072

Fanon, F. (2008). Black skin, white masks. Pluto Press.

Ferreira, C. O. (2014). The end of history through the disclosure of fiction: Indisciplinarity in Miguel Gomes’s Tabu (2012). Cinema: Journal of Philosophy and the Moving Image, 5, 18–47. http://cjpmi.ifilnova.pt/5-ndice

Hall, S. (2003). The spectacle of the other. In S. Hall, J. Evans, & S. Nixon (Eds.), Representation: Cultural representations and signifying practices (pp. 223–278). Sage Publications.

Henda, K. K. (Director). (2017). Havemos de voltar [Film]. Geração 80; Jahmek Contemporary Art.

Jameson, F. (1998). The cultural turn: Selected writings on the postmodern. Verso.

Medeiros, P. de. (2016). Post-imperial nostalgia and Miguel Gomes’ Tabu. Interventions, 18(2), 203–216. https://doi.org/10.1080/1369801X.2015.1106963

Medeiros, P. de. (2018). Lusophony or the haunted logic of postempire. Lusotopie, 17(2), 227–247. https://doi.org/10.1163/17683084-12341720

Mirzoeff, N. (2011) The right to look, a counterhistory of visuality. Duke University Press.

Mombaça, J. (2017, November 7). A coisa tá branca! Buala. https://www.buala.org/pt/mukanda/a-coisa-ta-branca

Mourão, P. (2018). Sobre algumas ruínas, uns lamentam, outros dançam: Algumas impressões sobre a presença portuguesa na 20ª edição do Videobrasil. Aniki, 5(1), 206–213. https://doi.org/10.14591/aniki.v5n1.369

Mourinha, V. (2020, January 22). Mosquito: “Este filme é uma forma de me redimir por ser filho de colonizadores”. Público. https://www.publico.pt/2020/01/22/culturaipsilon/noticia/-filme-forma-redimir-filho-colonizadores-1901077

Oliveira, A. de B. (2016). Descolonização em, de e através das imagens de arquivo “em movimento” da prática artística. Comunicação e Sociedade, 29, 107–129. https://doi.org/10.17231/comsoc.29(2016).2412

Oliveira, A. de B. (2017). Avó e O Jogo, ou o arquivo colonial “em movimento” nos vídeos de Raquel Schefer. Revista África(s), 4(7), 21–29. https://revistas.uneb.br/index.php/africas/article/view/4178

Pereira, A. C. (2016). Otherness and identity in Tabu from Miguel Gomes. Comunicação e Sociedade, 29, 331–350. https://doi.org/10.17231/comsoc.29(2016).2423

Pereira, A. C. (2021). Margarida Cardoso e as mulheres da casa-grande: Reconfigurar a memória (pós)colonial a partir da branquitude. Revista Ciências Humanas, 14(3), 39–53. https://doi.org/10.32813/2179-1120.2121.v14.n2.a751

Piçarra, M. do C. (2006). Salazar vai ao cinema I. Minerva.

Piçarra, M. do C. (2011). Salazar vai ao cinema II. DrellaDesign.

Piçarra, M. do C. (2015). Azuis ultramarinos. Propaganda colonial e censura no cinema do Estado Novo. Edições 70.

Piçarra, M. do C., & Castro, T. (2017). (Re)Imagining African independence: Film, visual arts and the fall of the Portuguese empire. Peter Lang.

Portugal reaches deal on EU and IMF bail-out. (2011, May 4). BBC. https://www.bbc.com/news/business-13275470

Ribeiro, A. P. (2018). Para acabar de vez com a lusofonia. Lusotopie, 17(2), 220–226. https://journals.openedition.org/lusotopie/3033

Sales, M. (2021). Nossos fantasmas estão vindo cobrar: Giro decolonial na arte contemporânea brasileira. Vista, (8), 1–14. https://doi.org/10.21814/vista.3641

Sales, M., & Lança, M. (2019). A matriz colonial de poder e o campo da arte: E nós? Como existir? Como re-existir? Vazantes, 3(1), 17–39. http://periodicos.ufc.br/vazantes/article/view/42912

Santos, B. de S. (2002). Between Prospero and Caliban: Colonialism, postcolonialism, and inter-identity. Luso-Brazilian Review, 39(2), 9–43. http://hdl.handle.net/10316/41193

Saraiva, J. C. (2018, May 5). O polémico museu-fantasma dos descobrimentos. Jornal i. https://ionline.sapo.pt/artigo/610802/o-polemico-museu-fantasma-dos-descobrimentos?seccao=Mais_i

Sequeira Brás, P. (2017). Crisis and catastrophe in cinema and video art. Paletten Art Journal, 307/308, 91–95.

Sequeira Brás, P. (2020). Post-Fordism in Active Life (2013), Industrial Revolution (2014) and The Nothing Factory (2017). In T. Austin & A. Koutsourakis (Eds.), Cinema of crisis: Film and contemporary Europe (pp. 76–92). Edinburgh University Press.

Shohat, E. (1991). Imaging terra incognita: The disciplinary gaze of empire. Public Culture, 3(2), 41–70.

Spivak, G. C. (1988). Can the subaltern speak? In C. Nelson & L. Grossberg (Eds.), Marxism and the interpretation of culture (pp. 271–313). University Illinois Press.

Stam, R. (2000). Film theory: An introduction. Blackwell Publishers.

Tiny, S. (Director). (2021). Constelações equatoriais [Film]. Divina Comédia.

Vicente, F. L. (2014). O império da visão. A fotografia no contexto colonial português (1860-1960). Edições 70.

Vieira, P. (2015). Imperial remains: Postcolonialism in Portuguese literature and cinema. Portuguese Journal of Social Science, 14(3), 275–286. https://doi.org/10.1386/pjss.14.3.275_1

Publicado

2022-06-22

Como Citar

Brás, P. S. (2022). A Ambivalência Colonial nas Imagens em Movimento Contemporâneas: O Caso Português. Comunicação E Sociedade, 41, 91–103. https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3698