A Reparação da História e os Erros dos Seus Agentes em O Regresso de Júlia Mann a Paraty

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3663

Palavras-chave:

psicologia negra, Sigmund Freud, Thomas Mann, Júlia Mann, memória

Resumo

É meu objetivo neste espaço analisar o mais recente livro de Teolinda Gersão, O Regresso de Júlia Mann a Paraty (2021), à luz do conceito de psicologia negra desenvolvido por Wade W. Nobles. Pretendo, assim, complexificar uma das questões centrais do romance, proferida por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, tornado por Gersão (2021) em personagem-narrador fictícia: “será possível que sejamos incapazes de progredir no plano ético, do mesmo modo que, afinal, parecemos incapazes de amor e compaixão?” (p. 14). Ao mesmo tempo, pretendo também desconstruir o que o romance nos aponta como os erros de dois dos mais significativos agentes da história, tanto no campo científico como no literário. Influenciados e influenciadores intelectualmente, as grandes figuras da história literária, científica e do pensamento presentes no livro de Gersão foram alvo do mesmo lapso: o não questionamento crítico de um mundo apoiado na hegemonia branca, em que a diferença e a dignidade do “outro” foram rasuradas. Basendo-me no trabalho de Catherine Hall e Corinna McLeod, entre outros, sobre o processo da escrita da história como um processo reparatório demonstro ainda como O Regresso de Júlia Mann a Paraty efetua um diálogo crítico e reparador com o passado que se espelha no presente.

 

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Biografia Autor

Sandra Sousa, Department of Modern Languages & Literatures, University of Central Florida, Orlando, Estados Unidos da América

Sandra Sousa é doutorada em estudos portugueses e brasileiros pela Universidade Brown, é professora associada no Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade da Flórida Central. Atualmente é pesquisadora do PielaAfrica (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias. Os seus interesses de pesquisa incluem colonialismo e pós-colonialismo; literatura colonial; relações raciais em Moçambique; guerra, ditadura e violência na literatura contemporânea portuguesa e luso-africana. Tem ensaios e recensões publicados nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal. É autora dos livros Ficções do Outro: Império, Raça e Subjectividade no Moçambique Colonial (Esfera do Caos, 2015), Portugal Segundo os Estados Unidos da América (Theya Editores, 2021), e co-editora do livro Visitas a João Paulo Borges Coelho. Leituras, Diálogos e Futuros (Colibri, 2017).

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Publicado

2022-06-22

Como Citar

Sousa, S. (2022). A Reparação da História e os Erros dos Seus Agentes em O Regresso de Júlia Mann a Paraty. Comunicação E Sociedade, 41, 25–42. https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3663