A Fachada Como Texto: Uma Semiótica do Azulejo e da Distinção Social em Fafe

Autores

  • Josué Duarte Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura, Escola Superior de Design, Universidade Politécnica do Cávado e do Ave, Barcelos, Portugal https://orcid.org/0009-0001-8909-0465

DOI:

https://doi.org/10.17231/comsoc.50(2026).7006

Palavras-chave:

azulejo de fachada, Fafe, brasileiros de torna-viagem, semiótica visual, distinção social

Resumo

Este artigo propõe uma análise semiótica dos revestimentos azulejares em sete edifícios históricos emblemáticos de Fafe, construídos na transição do século XIX para o XX. O estudo argumenta que o azulejo transcendeu a sua função ornamental e protetora para se tornar um texto visual e um instrumento central de distinção social. Através de uma análise semiótica, lemos comparativamente as fachadas promovidas pelos “brasileiros de torna-viagem” e pela elite tradicional local. Para tal, a leitura interpretativa mobiliza os conceitos de “denotação”, “conotação” e “mito”, descodificando a sintaxe visual e o contexto cultural destas construções. Os resultados revelam a existência de dois discursos visuais em competição: o primeiro compreende a narrativa do “brasileiro”, que utiliza o azulejo de vanguarda (arte nova), de relevo exuberante ou com referências cromáticas explícitas (verde e amarelo), para comunicar uma identidade cosmopolita e o sucesso de uma “nova riqueza”; a segunda narrativa, representativa da elite estabelecida, responde através do revivalismo (padrões pombalinos) ou da escolha de produções de prestígio, conotando um gosto erudito, legitimidade histórica e uma riqueza culta. Conclui-se que a fachada azulejada em Fafe funcionou como um espaço discursivo onde as elites da belle époque negociaram e competiram publicamente pela sua identidade e hegemonia social. Deste modo, o estudo contribui para os campos das ciências da comunicação e dos estudos culturais ao evidenciar como a cultura visual urbana e o design de superfície materializam dinâmicas de poder.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Josué Duarte, Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura, Escola Superior de Design, Universidade Politécnica do Cávado e do Ave, Barcelos, Portugal

    Josué Duarte é licenciado em Design Gráfico pela Universidade Politécnica do Cávado e do Ave e mestre em Design para Comunicação de Moda pela Universidade do Minho. Atualmente, é doutorando em Ciências da Cultura na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para além da sua atividade académica como docente na área da educação visual e tecnológica, é autor da obra Vestidos Para Obedecer. Josué Duarte tem vindo ainda a expor as suas obras em várias exposições.

Referências

Barthes, R. (2018). Elementos de semiologia (M. Margarida, Trad.). Edições 70. (Trabalho original publicado em 1964)

Barthes, R. (2009). Mitologias (R. Buongermino & P. de Souza, Trads.). Difel. (Trabalho original publicado em 1957)

Bastos, D. (2012). Santa Casa da Misericórdia de Fafe – 150 anos ao serviço da comunidade. SCMF.

Bastos, D. (2014). Fafe – Uma cidade portuguesa construída pelos “brasileiros de torna-viagem” na transição do séc. XIX para o séc. XX. In A. T. B. Alvim & W. R. dos Santos Jr. (Eds.), Anais do III Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (pp. 1–17). ENANPARQ.

Bourdieu, P. (1983). Gosto de classe e estilos de vida (P. Montero & A. Auzmendi, Trads.). Ática. (Trabalho original publicado em 1979)

Câmara Municipal de Fafe. (s.d.). Museu das migrações e das comunidades. Retirado a 11 de outubro de 2025, de https://www.cm-fafe.pt/museus-centros/museu-migracoes

Guerra, A. (2010). O azulejo de fachada na freguesia de Santo Ildefonso séculos XIX e XX [Relatório de estágio, Universidade do Porto]. Repositório Aberto. https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/55783

Joly, M. (2007). Introdução à análise da imagem (J. E. Rodil, Trad.). Edições 70. (Trabalho original publicado em 1993)

Leite, A. (2010). Fafe em datas. Labirinto.

Lotman, I. (1979). Semiotica de la cultura (N. Méndez, Trad.). Cátedra. (Trabalho original publicado em 1970)

Lotman, I. (2023). Mecanismos imprevisíveis da cultura (I. de A. Machado, Trad.). Edições Verona & Hucitec Editora. (Trabalho original publicado em 1994)

Lotman, I., Navarro, D., & Cáceres, M. (1996). La semiosfera (D. Navarro, Trad.). Universitat de València. (Trabalho original publicado em 1984)

Monteiro, M. (2004). Fafe dos “brasileiros” (1860-1930). Perspectiva histórica e patrimonial. Empresa do Diário do Minho.

Neto, A. (2016, 28 de junho–01 de julho). Casas de “brasileiros”: Uma reflexão crítica [Apresentação de comunicação]. 8.º Congresso Conselho Europeu de Pesquisas Sociais na América Latina, Salamanca, Espanha.

Pessoa, A. (2013). A casa do comendador Albino de Oliveira Guimaraes, no Rio de Janeiro. Museu, IV, (20), 1–15.

Pessoa, A., & Santos, A. (2019). José Florêncio Soares: Requinte e modernidade entre o Rio de Janeiro e Fafe. In A. Pessoa & A. Coimbra (Eds.), Livro Atas V Colóquio Internacional — A Casa Senhorial: Anatomia de Interiores (pp. 99–115). Câmara Municipal de Fafe.

Rodrigues, J. (2021). O património edificado dos brasileiros em Fafe e a consonância com roteiros. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Silva, L. (1995). Fafenses nascidos no séc. XIX: Perspectiva histórico-biográfica. Câmara Municipal de Fafe.

Publicado

21-10-2026

Como Citar

Duarte, J. (2026). A Fachada Como Texto: Uma Semiótica do Azulejo e da Distinção Social em Fafe. Comunicação e Sociedade, 50, e026020. https://doi.org/10.17231/comsoc.50(2026).7006

Artigos Similares

Também poderá iniciar uma pesquisa avançada de similaridade para este artigo.